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O cordel da simplicidade


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Imagem: Divulgação

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07/02/2017 - por Luciana Morais, Revista Ecológico

Você já deve ter recebido algum vídeo com poesia dele no WhatsApp. Pode também tê-lo visto numa dessas manhãs, declamando versos num conhecido programa de TV. Chamado por muitos de "embaixador do Nordeste", o cearense Bráulio Bessa aborda temas diversos, mas tem os sentimentos como ingredientes principais de sua popular "Poesia com Rapadura".

Com simplicidade e rimas retas, ele exalta profissões – como a de professor –, aborda questões do cotidiano – como o combate ao mosquito Aedes Aegypti – e, sobretudo, celebra sentimentos e atitudes capazes de “adoçar” as nossas vidas, como amor, respeito, gentileza e honestidade.

Poeta desde os 14 anos, Bessa apostou na internet para resgatar a tradicional literatura de cordel. Seus vídeos com declamações já ultrapassaram 40 milhões de visualizações, tendo como marcas registradas o sotaque e o inseparável chapéu.

Escritor, ele também criou o projeto ‘Nação Nordestina’, que tem mais de um milhão de fãs/seguidores, e um alcance de 10 milhões de pessoas por mês, em média. Como palestrante, combina elementos da poesia de cordel, causos da sabedoria popular e de humor, interligando-os à motivação, ao empreendedorismo e à veia batalhadora do nordestino.

Confira, a seguir, alguns de seus versos:

 

Gentileza

“Gentileza não é obrigação / não é regra, não é ordem, não é lei / Gentileza é essência, disso eu sei / é semente que se planta em qualquer chão / e do nada nasce um pé de gratidão / Irrigado pelas águas da igualdade / bate um vento e voam folhas de bondade / num instante se espalha em todo canto / Gentileza não é cara e vale tanto / ser gentil é ser rico de verdade / é ser rico de alegria e bom humor / é falar “com licença”, “obrigado" / é dizer um “bom dia" até calado / num olhar ou num gesto de amor / É pedir sem esquecer um “por favor” / é ser justo, bondoso, solidário / é ser forte, é ser revolucionário / construindo um mundo diferente / Gentileza é um pedaço de Deus dentro da gente / ajudando a mudar esse cenário / já dizia o poeta em seu letreiro / Gentileza só gera gentileza / o meu verso também tem a firmeza / do amor mais puro e verdadeiro / não carece de ouro nem dinheiro / pra ser bom com quem tá necessitando / não importa se alguém tá observando / seja homem, menino ou mulher /cada um é o que é e você é / os seus gestos sem ninguém tá lhe olhando.”

 

Vingança e justiça

“Há quem diga que quem bate logo esquece / quem apanha é quem se lembra da ferida / que se torna cicatriz por toda vida / muitas vezes em alguém que nem merece / é na hora que a justiça esmorece / que a vingança ganha traços de maldade / e o ódio lhe assalta a liberdade / lhe deixando preso a esse mal cortante / a vingança dura apenas um instante / e o perdão dura uma eternidade / acredite e nunca perca a esperança / que a justiça tenha sempre precisão / na balança vinte gramas de perdão / pesam mais que vinte quilos de vingança / há quem diga: quem perdoa um dia cansa / pois pergunte isso a Deus, por caridade / já pensou se ele cansasse de verdade / se tornando vingativo e intolerante… / a vingança dura apenas um instante / e o perdão dura uma eternidade / perdoar talvez seja um recomeço / não entenda isso como esquecimento / siga em frente que Deus faz o julgamento / cada um paga a conta no seu preço / a justiça nunca erra o endereço / mesmo cega, enxerga o mal e a bondade / perdoar não lhe faz fraco e covarde / lhe faz forte, lhe faz livre e tolerante / a vingança dura apenas um instante / e o perdão dura uma eternidade.”

 

Comida brasileira

“O Brasil de norte a sul / do sudeste ao nordeste / passando no centro-oeste / embaixo de um céu azul / do chão brota um menu / tão completo, tão inteiro / do morango ao cajueiro / sabores tão diferentes / mas falta um ingrediente / na mesa do brasileiro / tem churrasco lá no sul / tem o cuscuz do nordeste / queijo minas no sudeste / na Bahia sururu / no centro-oeste o menu / tem arroz de carreteiro / e das mãos do canoeiro / peixe assado e pirão quente / mas falta um ingrediente / na mesa do brasileiro / cajuína, acarajé / temos doce de goiaba / a moqueca capixaba / tem cachaça, o nosso ‘mé‘ / um pãozinho com café / os legumes do roceiro / e do mar o jangadeiro / traz mil peixes diferentes / mas falta um ingrediente / na mesa do brasileiro / falta solidariedade / temperando essa fartura / mais doce que rapadura / é o mel da igualdade / pitadas de honestidade / mudariam esse roteiro / do doutor ao faxineiro / do famoso ao indigente / seria bem diferente / a mesa do brasileiro."

 

Otimismo

“Sobre a vida... / sendo eu um aprendiz / a vida já me ensinou / que besta é quem vive triste / lembrando do que faltou / magoando a cicatriz / esquece de ser feliz / por tudo o que conquistou / afinal, nem toda lágrima é dor / nem toda graça é sorriso / nem toda curva da vida / tem uma placa de aviso / nem sempre que você perde / é de fato um prejuízo / o meu ou o seu caminho / não são muito diferentes / tem espinho, pedra e buraco / ‘pra mode‘ atrasar a gente / não desanime por nada / pois até uma topada / empurra você pra frente / só eu sei cada passo por mim dado / nessa estrada esburacada que é a vida / passei coisas que até mesmo Deus duvida / fiquei triste, capiongo, aperreado / porém, nunca me senti desmotivado / me agarrava sempre numa mão amiga / e de forças minha alma era munida / pois do céu a voz de Deus dizia assim: suba o queixo, meta os pés, confie em mim / vá pra luta que eu cuido das feridas."

 

Professor

“Um guerreiro sem espada / sem faca, foice ou facão / armado só de amor / segurando um giz na mão / o livro é seu escudo / que lhe protege de tudo / que possa lhe causar dor / por isso eu tenho dito / que tenho fé e acredito / na força do professor / ah, se um dia os governantes / prestassem mais atenção / nos verdadeiros heróis / que constroem a nação / ah, se fizessem justiça / sem corpo mole ou preguiça / lhe dando o real valor / eu daria um grande grito / tenho fé e acredito / na força do professor / porém, não sinta vergonha / não se sinta derrotado / se o nosso país vai mal / você não é o culpado / nas potências mundiais / são sempre heróis nacionais / e por aqui sem valor / mesmo triste e muito aflito / tenho fé e acredito / na força do professor / um arquiteto de sonhos / engenheiro do futuro / um motorista da vida / dirigindo no escuro / um plantador de esperança / plantando em cada criança / um adulto sonhador / e esse cordel foi escrito / porque ainda acredito / na força do professor.”

 

Honestidade

“Não! Eu não quero enchentes de caridade /só quero chuva de honestidade molhando as terras do meu sertão! Se essa tal chuva de honestidade/despencasse nos ternos engomados/e se os homens que vivem engravatados/se banhassem nas águas da verdade/ a sujeira no ralo da maldade/ escorrendo pra longe da nação/eu garanto que cada cidadão/ pagaria feliz cada imposto/ quem é rico com suor de outro rosto é um pobre de dinheiro e coração. Eu pergunto aos homens do poder/ pra que tanta ganância e cobiça/ pra que tanto dinheiro na Suíça/ se aqui falta até o que comer/ nosso povo vai ter que se mexer / pra findar essa tal corrupção/ exigindo justiça e retidão / só assim findaria esse desgosto/ quem é rico com suor de outro rosto é um pobre de dinheiro e coração. A escola da vida me ensinou/ a lutar por aquilo que é meu/ sem querer lhe tirar o que é seu/ cada um colhe aquilo que plantou/ e o suor que você já derramou/ escorreu no seu corpo até o chão/ irrigando uma grande plantação/ de caráter, justiça e de bom gosto/ quem é rico com suor de outro rosto é um pobre de dinheiro e coração. Eu só peço que exista igualdade/ que o povo receba o que merece/ se um poema é quase uma prece/ tô orando pedindo honestidade/ mais respeito e mais dignidade / mais cultura, saúde, educação/ sobrem livros, mas que nunca falte o pão/ deixo meu sentimento aqui exposto/ quem é rico com suor de outro rosto é um pobre de dinheiro e coração.”

 

Apaixonados

“Despeje na sua vida / uma carrada de amor / de diferentes idades / de todo tipo de cor / sem inventar divisões / por crenças, religiões / ou opção sexual / que eu garanto a você / que vai ser fácil entender / que todo amor é normal. / o importante é amar /sem rédeas, e sem censura / mesmo que a sociedade / às vezes seja tão dura / amar é sentir coragem / sem fingir, sem camuflagem / sem medo de ser julgado / pois quem julga um amor / não é juiz, não sinhô, / é no fundo um mal amado. Ninguém pode escolher a quem se ama / é o amor quem lhe escolhe e diz: vá lá! Não existe uma regra certa pra se amar / Deus que escreve e que dirige toda trama / um roteiro escrito com comédia e drama / e ninguém sabe como o filme vai findar / não se avexe, deixe o amor lhe carregar / pois se existe um fato que eu acredito / é que na vida, todo amor é bonito / feio mesmo é viver e não amar!"

 

Tolerância religiosa

Respeite mais, julgue menos! Perdoe mais, condene menos! Abrace mais, empurre menos! Faça mais, fale menos! E se o assunto for religião, seja razão, seja sua razão. Mas também seja coração, aliás, seja plural, seja corações de todas as crenças, de todas cores, de todas as fés, de todos os povos, de todas as nações! Não transforme sua fé em uma cerca de arames cortantes! Use ela pra se transformar em alguém melhor que antes. Em alguém melhor que ontem! Se transforme, transforme alguém, afinal, do que vale uma prece se você não vai além? Se você não praticar o bem! Pratique o bem sem olhar a quem! Sem se preocupar com a crença de ninguém! Pois acredite, Deus não tem religião também! Deus é o próprio bem! Deixe Deus, ser o Deus de cada um! Deixe cada um ter o Deus que quiser ter! Seja você! E deixe o outro ser o que ele quiser ser! Seja menos preconceito! Seja mais amor no peito! Seja amor, seja muito amor. E se mesmo assim for difícil ser, não precisa ser perfeito. Se não der pra ser amor seja pelo menos respeito!”

 

União

“Um homem sábio, já velho / com olhar vago e distante / convocou seus quatro filhos / e falou por um instante: / lá no fundo do quintal tem quatro varas de pau / por favor, vão lá buscar / e mesmo sem entender / o que o pai mandou fazer / responderem: é pra já / quatro adultos para o mundo / para o pai, quatro crianças / recebendo uma lição / daquela voz fraca e mansa / quatro filhos, quatro varas / frente à frente, cara a cara / e o velho pai ordenou: / que cada um quebre a sua / depois jogaram na rua pedaços do que sobrou / vão buscar mais quatro varas / disse o velho paciente / e falou: porém, agora vamos fazer diferente / juntou as varas na mão, amarrou com um cordão / e disse: podem quebrar / botaram força, gemeram, mas ligeiro entenderam / que não ia adiantar / e o velho disse: meus filhos / essa é a minha herança / não são carros importados / nem dinheiro na poupança / lhes deixo essa lição / caminhar com união / é o nosso melhor transporte / sigam a vida unidos / que jamais serão vencidos / pois juntos somos mais fortes."

 

Felicidade

“Sorrir tem um gosto bom / sorrir é bom e faz bem / adoça, tempera a vida / a receita a gente tem / é simples de começar / basta você temperar / a sua vida também / um sorriso no rosto contagia / e enfeita muito mais que maquiagem / que depois de usar vem a lavagem / e a beleza se escorre pela pia / diferente da verdadeira alegria / que é obra de Deus, esse pintor / que enfeita nossa alma de amor / muitas vezes paro, penso e analiso / se o tempero da vida é o sorriso / vou sorrindo para a vida ter mais sabor / Charlie Chaplin, nosso gênio adorado / disse algo para o mundo refletir / que um dia vivido sem sorrir / é de fato um dia desperdiçado / Não precisa ficar mal-humorado / enfrentando um desafio ou uma dor / o sorriso é sempre superior / como Chaplin, também deixo o meu aviso / se o tempero da vida é o sorriso / vou sorrindo para a vida ter mais sabor".

 

Amor

“Não existe regras, números, nem leis / quando o amor chega quietinho e contagia / de repente você sente uma agonia / geralmente isso acontece aos dezesseis / calendários já não servem pra vocês / o real se transformou em fantasia / as tristezas são curadas com alegria / Um instante dura uma eternidade / Pro amor não há tempo nem idade / o segredo é amar mais a cada dia. E assim vamos seguindo a caminhada / na certeza que o amor não foi em vão / um pro outro feito o vento e o balão / desviando dos espinhos na estrada / enfrentando cada choro com risadas / renovando a todo dia essa união / com amor, respeito e dedicação."

 

Saiba mais:

www.brauliobessa.com


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